Reforma Tributária em Serviços: o que muda para as empresas
Este artigo responde: como a mudança da tributação da origem para o destino e a unificação em torno do IBS e da CBS afetam empresas prestadoras de serviços em geral?
O setor de serviços — que aqui trata de empresas prestadoras de serviço, como agências, empresas de tecnologia, escolas, clínicas e prestadoras de manutenção, e não de profissionais liberais e autônomos atuando individualmente — é um dos que mais acompanha de perto a Reforma Tributária, porque historicamente convive com uma carga tributária municipal (o ISS) que, em muitos municípios, é proporcionalmente mais baixa do que a carga incidente sobre bens no comércio e na indústria.
Da tributação na origem para o destino
Hoje, o ISS é devido, em regra, ao município onde está sediada a empresa prestadora — o que levou algumas empresas a se instalarem em municípios com alíquotas mais baixas, mesmo atendendo clientes em todo o país. Com o IBS, a lógica se inverte: o tributo passa a ser devido no destino, ou seja, no local onde o serviço é efetivamente consumido pelo cliente. Isso reduz o incentivo a esse tipo de planejamento baseado apenas em localização e aproxima a tributação de serviços da lógica já aplicada, sob o ICMS, à circulação de mercadorias.
Possível mudança na carga tributária efetiva
Pegue uma consultoria empresarial tributada hoje por ISS a 5% sobre o faturamento, com poucos insumos tributados para gerar crédito. Quando a alíquota-padrão de referência entrar em vigor sobre uma base ampla de não cumulatividade — a partir de 2027 para a CBS e de 2029 para o IBS —, essa empresa tende a sentir aumento de carga efetiva, porque o ganho de crédito amplo compensa pouco quando a maior parte do custo da operação é mão de obra, que não gera crédito. Já uma empresa de serviços com cadeia de insumos relevante — uma gráfica, por exemplo — tende a sentir o efeito inverso. O resultado agregado da reforma pode ser neutro; o resultado para uma consultoria específica, não necessariamente.
Créditos tributários e cadeia de insumos
Por outro lado, a ampliação do direito a crédito também beneficia empresas de serviços que hoje têm dificuldade de aproveitar créditos de PIS e COFINS sobre insumos, aluguel, softwares e outras despesas operacionais. No novo modelo de não cumulatividade plena, uma parcela maior dessas despesas deve gerar direito a crédito, o que pode compensar, ao menos parcialmente, eventual aumento de alíquota nominal.
Regimes específicos para determinados serviços
A reforma prevê regimes diferenciados para alguns segmentos de serviços considerados estratégicos. Saúde e educação têm redução de 60% em relação à alíquota de referência geral, nos termos dos arts. 129 e 235 a 243 da LC 214/2025. Transporte coletivo também conta com regime próprio de alíquota reduzida, cujos percentuais e critérios de enquadramento dependem de regulamentação complementar. Empresas desses segmentos devem acompanhar de perto a regulamentação para entender em qual categoria seu serviço se enquadra.
A pegadinha: nem toda atividade intelectual tem redução automática
Um erro comum é achar que qualquer empresa de serviço "intelectual" se qualifica para a redução de 30% das alíquotas prevista no art. 127 da LC 214/2025. Essa redução vale para pessoas físicas habilitadas e sociedades uniprofissionais de categorias listadas no Anexo III da lei — advogados, engenheiros, contabilistas, entre outras —, não para consultoria empresarial genérica ou empresas de tecnologia organizadas como sociedade comum. Uma empresa de serviços deve confirmar com o contador se a atividade exercida realmente se enquadra na lista, em vez de presumir a redução pelo tipo de trabalho realizado.
O que fazer agora
- Simular o impacto da tributação no destino, considerando onde estão localizados os principais clientes da empresa.
- Revisar a política de precificação de contratos de longo prazo, que podem atravessar diferentes fases da transição.
- Levantar, com o contador, quais despesas atuais passarão a gerar crédito de IBS e CBS.
- Verificar se o serviço prestado se enquadra em algum regime específico ou diferenciado previsto na regulamentação.